Winnicott, Nietzsche e uma filosofia do porvir

 

(essa discussão é um desenvolvimento do post anterior sobre Vitor Ramil e “Querência”.

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O embate entre verdade e mentira, NECESSIDADE de mentira: esse foi um tema caro à Nietzsche, um tema sobre o qual ele se debruçou muitas vezes.

Pois o homem tem necessidade de verdade. Há nele algum Deus ou Demônio que o puxa, que o faz querer, querer saber, dominar as coisas e o mundo. Pois saber é dominar. O homem tem necessidade da verdade para sentir-se senhor das coisas; saber é conquistar, e o homem quer ser senhor.

O homem precisa da verdade.

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Porém, há também necessidade de mentira, argumentava Nietzsche. Porque a vida é uma “carreira perdida”, como diz Jayme Caetano Brawn. Há somente um vencedor nesse embate, e sabemos que não seremos nós. Falo do tempo.

 

Como viver sob o fardo desse SABER? Como continuar a luta sabendo que ela não será ganha, não importa o que façamos? Então o homem mente; mente para si mesmo. Engana-se. Cria um mundo ilusório, deixa de ver algumas coisas, e consegue continuar vivendo.

O homem precisa da mentira.

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Que faz o homem diante dessa dupla necessidade? Cria. Inventa, como o artesão, um mundo que é só seu, que responde as SUAS coordenadas, um mundo ENTRE verdade & mentira. Enganar-se, mas com arte: eis a sabedoria para o homem, diz Nietzsche. Eis também porque a arte é mais verdadeira que a ciência – porque nela também a mentira se vê santificada.

(“Mais verdadeira”: leia-se: de uma verdade mais conforme à necessidade do homem.)

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Esse “matrimônio do céu & do inferno”, do verdadeiro e do falso, servia como guia para Nietzsche, como uma espécie de esperança, de plano, de proposta. Assim deveria ser uma “filosofia do porvir”, diz ele, não uma filosofia da pura verdade, porque a pura verdade não interessa ao homem, nem uma filosofia mentirosa, porque essa filosofia seria somente arte, mas uma filosofia mista, do mais alto e do mais baixo no humano. Essa filosofia estaria destinada a dominar, diz Nietzsche, porque é a que mais se amolda ao bicho homem.

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Século e meio depois, eis-nos às voltas, como sempre, com mentira & verdade. A psicanálise nasceu nesse ínterim, e quê nos diz ela? Sim, o homem necessita da verdade. Sim, o homem necessita de mentira.

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Winnicott vê que a criança, ao nascer,  precisa da mãe. Ela não existe sem essa mãe, tampouco há mãe sem criança. E à mãe cabe a tarefa mais delicada talvez já entrevista pelo homem: ela deve iludir a criança, seduzi-la, fazendo-a acreditar, pelo cuidado, que aquilo que ela aspira, ela tem.

O bebê tem fome. Sente-se mal, não sabe o que lhe ocorre nem muito menos o que fazer para solucionar aquela tensão. Vem a mãe com o seio, alimenta-o, sacia sua vontade quase na mesma hora. De onde veio esse seio? O bebê ainda não sabe nada do mundo, não sabe que é separado daquela mãe. Logo, o seio é parte dele mesmo. Melhor: o seio nasceu de SUA necessidade. Ele é o seio.

E assim prossegue o homem. O cuidado materno engambela-o, faz-lhe crer que acopladas às suas necessidades vêm sempre uma solução, um seio mágico aparece, algo de bom vem tamponar o desconforto. Ele não conhece o mundo, e acha que tudo que aparece, tudo que ele percebe, é “ele mesmo”. Ele está dependente, é verdade. Talvez até na dependência absoluta. Mas de seu ponto de vista, como não concluir que ele é – um Deus? Tudo o que ele quer. tudo que ele precisa, está ali tão logo surge a necessidade. “É a mãe”, nós dizemos, do nosso ponto de vista exterior. “Sou eu”, ele diz (ou diria). E assim é seduzido para a vida.

Pela mentira.

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Viver pode não ser uma coisa boa, mas o bebê foi enganado. Primeiro, vivia no quentinho do útero, onde mal havia espaço entre sua necessidade e a resolução da mesma. Depois, ao nascer, quando começa a existir um espaço, ele é logo suprido pela mãe – desde que ela seja “suficientemente boa”, diz Winnicott. Assim ele começa a desejar a vida, a gostar desse jogo de necessidade e saciamento, acreditando-se o Deus dessa brincadeira algo tola.

Tolinho… logo a mãe começa a falhar, a não estar sempre ali, a demorar-se um pouco mais no atendimento da criança. E ela então começa a perceber que seus “poderes” falham. Antes, a frequência dos cuidados faziam-no crer que era ONIPOTENTE. Agora, a falha materna não mais sustenta essa imagem. Fura-se a onipotência. Desilude-se o bebê. Desilusão: vida é teu nome. E agora?

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Agora o bebê espera. Mantém na mente a imagem daquele poder onipotente que imaginava ter – e que era o cuidado da mãe – até que a mãe venha realmente, e mais uma vez seu desejo e a satisfação real operam em coincidência. Melhor: ele acaba aprendendo com a mãe, ele aos poucos começa a ajudar-se a si mesmo, ele não precisa mais da mãe pra tudo. Independência, ao menos relativa, na medida em que introjeta essa mãe cuidadora, e cuida de si mesmo.

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Assim desenvolve-se a criança. Aos poucos, ela chega na realidade. A realidade, o sabemos, tem o péssimo hábito de NÃO seguir nossos desejos, de não responder aos nossos apelos. A realidade é uma ofensa, um tapa na cara, a prova, instante a instante, de que NÃO somos os senhores em nossa própria casa… a prova de nossa impotência.

Mas agora não há mais mãe. Não há como voltar atrás, não há como simplesmente empurrar a realidade ladeira abaixo. Como conviver com isso, nós que fomos seduzidos para a vida justamente pela onipotência que acreditávamos ter?

“Só se domina a natureza subjugando-se a ela”: se não podemos vencer, unimo-nos à ela. Aprendemos: com a realidade não se brinca. Mas aprendemos como a realidade é, como se comporta, e então… brincamos. Brincamos de Deus. Comandamos. Mais uma vez, somos onipotente, na medida em que conhecemos. Então nos esforçamos para conhecer. Porque…

O homem precisa da verdade.

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Eis o plano de Nietzsche realizado. Verdade & mentira casam-se no homem, constituem-no desde dentro. Precisamos de ambos, somos ambos. Assim nos relacionamos com a realidade, diz Winnicott: mantendo a onipotência no inconsciente, e buscando legitimá-la aqui, na consciência, através do saber.

Cada acerto que damos é um ponto a mais para nossa onipotência; cada erro nos fere fundo, faz lembrar que perdemos nosso lugar. Pois a mentira nos seduziu para o mundo, e sem ela não somos capazes de viver aqui.

E então mentimos, dirá Winnicott: criamos uma terceira área da experiência, ali onde ocorrerão a arte, a brincadeira, a religião, a filosofia, a ciência… ali onde nos relacionamos com a realidade como deuses, buscando nunca deixar transparecer que não o somos. E brincamos mais uma vez. Porque…

o homem necessita da mentira.

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A psicanálise é a filosofia do porvir nietzschiano.

 

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