Vitor Ramil, “Querência” & a vida

 

Domingo de manhã, escutando um playlist aleatório pelo celular, quando toca “Querência”, do Vitor Ramil:

 

Já escutara a música inúmeras vezes, mas só nesse dia me dei conta de que ela falava da vida, do ciclo da vida de todos nós.

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“Deixei a velha querência… saí de lá muy novinho”…

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Todos um dia saímos de casa. A casa, nossa infância, será nossa referência pelo “mundo afora”, quer queiramos, quer não. Saímos confiantes, com toda a energia e a ingenuidade acumulados em anos de cuidados recebidos. Os pais nos dão um mundo digerido, facilitado; crescemos nele achando que tudo podemos. Somos jovens, somos orgulhosos, impetuosos, cheios de certezas. Saímos pra conquistar o mundo como se ele fosse apenas um puxadinho daquele nosso lar. Somos jovens.

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“o que viesse eu topava…”

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Ocorre então um tempo de enfrentamento, mais ou menos bem sucedido conforme as vicissitudes de cada um. O jovem quer mudar o mundo, provoca para o duelo cada um dos poderes estabelecidos, quer saber, quer dizer ao mundo como ele – o mundo – deve ser. As vezes consegue; os adultos, cansados da ‘peleia’, se vêem levados pela força e pela energia do “novo” que corre naquele sangue adolescente. Transformações ocorrem, conquistas, derrotas, outras coisas permanecem. O jovem vai ficando adulto, e o mundo agora é sua casa.

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“Um dia me deu saudades, eu fui rever o meu pago…”

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O mundo é sua casa, uma casa agora não mais “facilitada” pelos pais, uma casa conquistada, onde tudo tem a sua medida – sua, do outrora jovem, hoje já cansado. As coisas lhe refletem sua imagem, ele é agora sua própria mãe e seu próprio pai; a ele cabe facilitar ou dificultar as coisas para si mesmo. Já não é mais jovem, e a tarefa parece hercúlea. Foi-se a ingenuidade, e em seu lugar ficou um gosto… – amargo.

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“O tempo passou lá se foi… eu não queria que fosse…. tudo pra mim terminou-se… nem eu sou mais o que era…”

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O jovem envelheceu. Nem ele nem o mundo são mais os mesmos; o mundo ainda lhe reflete as virtudes, porém; só que o mais presente é o cansaço. O jovem cansou do mundo; o mundo lhe cansa. Pouca coisa sobrou. Os dias se acumulam, um após o outro. O homem velho sente que seu tempo está chegando.

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“E hoje só o que me resta /  É o pingo, o laço e o pala
Pistola, só com uma bala /  E a estrada pra bater casco
No cano da bota um frasco /  E um fiambrezito na mala”

 

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A “bala que resta” tem destino certo; é ele mesmo, sua esperança, sua vontade de descobrir coisas novas. O homem é uma espécie de moinho, que vai tecendo as experiências e as transformando em ‘si mesmo’, em algo palpável, “vivível”. O trigo indigesto dos acontecimentos acabam virando farinha e pão, com o que o homem – a alma do homem – se alimenta. E dela constitui seu corpo.

Mas esse moinho está gasto; do muito trigo moído, pouco lhe resta. O “frasco no cano da bota” é como o óleo que se coloca nas engrenagens carcomidas de alguma máquina. Mas seu efeito é efêmero. A roda segue, girando, girando… até parar ao fim de mais um ciclo.

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Inútil dizer que esse ciclo se repete com todos e com cada um. Aos jovens essas palavras não servirão para nada. Eles tem ainda que tecer suas próprias palavras, fazer suas as experiências que legitimam cada verdade e cada sentença nessa terra. Os velhos… tampouco hão de servir-se dessa verdade. Seu tempo já passou. A eles mais vale um gole d’algum frasco, um “fiambrezito na mala”, e seguir … batendo casco.

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“Querência”: lugar onde vivemos, e o fato de “querer”, o lugar aonde queremos.

 

O tempo é a nossa querência.

 

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