Criticando uma crítica ao édipo – pedaços de uma carta (roubada?)

Transcrevo abaixo um pedaço de email onde converso com um amigo sobre críticas ao conceito de édipo em psicanálise – de um livro que ele tinha me sugerido. Essa conversa teve (e talvez terá) muitos capítulos; talvez alguns apareçam aqui. Embora considere o conceito em si problemático, por outro lado considero que a crítica muitas vezes mais atrapalha que ajuda. Como tudo na vida, a crítica pode ser boa, se bem utilizada; não é a coisa, enfim, mas seu uso.

 

* * * * *

 

Retomando a questão do Édipo, queria fazer uma diferenciação aqui: no ní­vel teórico, acho válido que se queira discutir o Édipo como normativo, e a psicanálise como TEORIA talvez tenha que ser revista em algum ponto, etc, etc, etc. É questão de criticar alguns fundamentos e , com base na coerência suposta da teoria, demandar alguns ajustes. Esse é um ponto.

 

Outro ponto é a psicanálise como prática. Nesse nível, o Édipo conta pouco; melhor dizendo, a TEORIA conta pouco. Pois estar atendendo / sendo atendido é uma experiência, e o grande ensinamento de Freud foi que é o paciente, e NÃO o analista, quem faz a análise; o analista apenas o segue, procura ajudá-lo com o processo…

 

Usando uma imagem, é como as teorias sobre o heliocentrismo x geocentrismo, que existiam desde a antiguidade; uns defendendo que o sol estava no centro do universo, e demandando coerência nas teorias existentes, outros defendendo que a terra é que estava no centro, e buscando coerência nas observações correlatas; mas o fato dessas discussões existirem NO N͍VEL DA TEORIA não impedia de o sol nascer e se pôr todo dia, da mesma forma que hoje, provavelmente. O FATO CONTINUAVA LÁ. E o que é o fato na psicanálise? É que a RELAÇÃO com o analista muda a pessoa – para melhor, espera-se, kkkkk…

 

Uma forma de Freud “explicar”  isso – teorizar sobre isso – passou pelo édipo. Esse certamente é um conceito complicado, discutí­vel, como outros, aliás (pulsão de morte… castração… ????)…. mas eles estão todos referidos à  teoria… acho que a prática é outra coisa, e inclusive acho que Freud concordava com isso. O fato de não ter deixado nenhum “manual” de análise vai nessa direção; ele confiava no “tato” do analista – ver os artigos metapsicológicos – , e o tato, como definiu depois Ferenczi, é justamente a “capacidade de se relacionar com empatia”, isto é, de criar um bom ambiente de RELAÇÃO (volta a relação de novo…).

 

Falando em conceitos, não posso deixar de lembrar de um livrinho ótimo, escrito por um brasileiro por sinal, que é “O Tronco e os ramos”, do Renato Mezan. Extremamente recomendo esse livro para pensar a psicanálise. Nele Mezan tenta mostrar como EM FREUD MESMO existiriam pelo menos 4 psicanálises, 4 “ramos” teóricos que depois se desenvolveram nas 4 grandes escolas psicanalí­ticas (relações de objeto, escola do “eu”, escola lacaniana e escola kleiniana). Essas teorias meio que se tencionavam mutuamente, e eram fruto da cabeça teórica do Freud tentando dar conta do que acontecia (na prática clí­nica).

 

Na minha visão, (a teoria do) édipo é uma tentativa (conceitual) do Freud para dar conta dessas tensões (teóricas); uma tentativa de UNIFICAR a teoria psicanalí­tica, na medida em que o conceito de édipo mistura elementos de IDENTIFICAÇÃO (narcisismo, relação idealizada com os pais, etc), de INSTÃNCIAS psi­quicas (ego, superego, ideal de ego, etc), de SEXUALIDADE (catexias, investimento, fixações, recalque), etc.

* * * *

 

Enfim, minha crítica à crí­tica dos autores sobre o Édipo é que muito comumente essas críticas são reducionistas… partem de uma imagem simples e unívoca de um Freud normatizador para então “salvar” a psicanálise – de forma um tanto simplista também… – quando é possí­vel (com um pouco de simpatia) perceber que o próprio Freud estava às voltas com esses problemas da psicanálise e que ele fez o que pode, deu seu melhor, mas estava ciente da precariedade de alguns conceitos. Essa precariedade, no entanto, não devia impedir que a análise, enquanto PRÁTICA, continuasse, baseada na relação, nos EFEITOS que ela produzia, etc.

 

No fundo, lembro de quando EU era crítico da psicanálise: minha impressão era de que cada conceito que eu criticava, os psicanalistas vinham e diziam “mas isso não é muito importante; temos outros conceitos, etc”, até que parecia que eles sempre “escapavam” com essa “malemolência” (ou displicência?) teórica… no fundo eles estavam me dizendo que a teoria não importava tanto, que era somente uma “historinha” sobre o que acontece – o nascer do sol, etc – e que o FATO de o sol “nascer” estava ali, e ISSO era o importante. As teorias sobre isso eram só maneiras muito pobres de tentar descrever o fato, comunicá-lo, traduzi-lo em palavras. Mas na medida em que eu me interessava pela TEORIA – eu não PODIA ver outra coisa senão a teoria… e perdia o nascer do sol…

* * * * *

 

Talvez seja tudo uma questão de simpatia; minha simpatia hoje, minha antipatia ontem, são primeiras em relação aos argumentos. Bom, de certa forma é isso mesmo que estou dizendo né, que o importante é a relação… mas o ní­vel da coerência (teórica) existe, e acho que cumpre um papel importante ao convencer as pessoas a experimentarem (ou não) as relações que circunscrevem a clí­nica. Sem contar o papel da ciência, que é esse exercí­cio tão difí­cil de testar a correspondência entre nossas “historinhas” e os fatos que supostamente essas histórias circunscrevem.

 

Acho que era o Espinoza que dizia que “tudo compreender é tudo perdoar”; entendo isso no sentido de que todas as nossas escolhas são determinadas, que para tudo há uma “causa adequada” (inclusive psicologicamente, no “mundo interior”), então quando temos uma visão ampla de todas as causas, tudo é compreendido, e tudo se apresenta causado, necessário, determinado – perdoável, em suma, por ter uma razão dada pelo todo – que no fundo é Deus, ou é inseparável da divindade. Digo isso porque enquanto escrevo sobre a importância da “relação” frente ao teórico, penso também na critica possível de que dar importância à  relação já é em si mesmo uma “teoria”, e de que talvez essa teoria implique em pontos X. Y, Z  que me mostrariam que a teoria é no fundo infundada, isto é, não repousa sobre “dados”, mas sobre perspectivas históricas, preconceitos, talvez erros…

 

Isso é completamente plausível.

 

A resposta que me ocorre é a de Sócrates: se eu for esperar ter certeza absoluta sobre os fundamentos das coisas, provavelmente não vou começar a andar nunca… ao passo que se começar a caminhar, mesmo errando, posso ir, de correção em correção, avançando… uma proposta científica verdadeiramente “avant la letre“, como se diz… e que Freud subscreveria, penso eu, na medida em que queria uma psicanálise “científica”, isto é, sujeita a essas correções conforme se avança…

 

É claro que essa crí­tica conceitual tem um papel nisso – no avançar. Só não pode ser confundida com uma crí­tica à  caminhada proposta pelo autor; o que seria tão raso quanto aceitá-la enquanto verdade estabelecida, e não enquanto… caminhada. Céticos e acrí­ticos se encontram nesse ponto…

 

 

Uma resposta para “Criticando uma crítica ao édipo – pedaços de uma carta (roubada?)

  1. Pingback: Nietszche, Freud e a imanência da subjetividade | eu(em)torno·

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s